Horta comunitária é cultivada por moradores de rua

Seu Zé está em situação de rua há cerca de oito anos

Apesar da proximidade do metrô Armênia e da avenida Cruzeiro do Sul, a região da rua Porto Seguro lembra São Paulo antiga. São ruas repletas de pequenas casas, cortiços, bares, galpões e mercearias. A ausência de carros e prédios dá um ar nostálgico e melancólico ao local.

Dentro da Casa Porto Seguro, um centro de convivência para moradores de rua, é possível ver outra cena incomum da cidade. São homens trabalhando na terra, cuidando de uma horta. Com enxada e rastelo em punho, eles plantam sementes de alimentos que vão comer no futuro.

Anderson procura reabilitação social na casa de convivência

Anderson procura reabilitação social na casa de convivência

Plantando o futuro, esquecendo o passado 

José Alves dos Santos, 58, o “Seu Zé”, veste camisa social branca, calças e botas sujas de barro e está martelando os novos canteiros da horta. Enquanto isso, Anderson Araújo, 36, planta sementes de cenoura.

Os dois encontram-se em situação de rua. Seu Zé nasceu em Pombal, Paraíba, e trabalhou na construção civil por 28 anos. “Gastei todo o dinheiro que ganhei”, comenta. Anderson Araújo, 36, filho de italiano com baiana, nasceu em São Paulo, era feirante de frutas e, entre altas e baixas, frequenta a casa de convivência há 10 anos.

De repente, Seu Zé interrompe as brincadeiras e piadas. Ele crítica a maneira que as sementes são colocadas. “Sou exigente na hora de trabalhar”, explica.

Seu Zé tem que peneirar a terra seca que costuma ser utilizada em obras ou jardinagem

Fica claro que ele é o cabeça da horta, que serve cenouras, cebolinhas, chás, tomatinhos, vagem entre outros legumes e verduras. Ela rende 5 dias de salada por mês para os mais de 150 conviventes do local – uma economia de R$ 200 mensais no fechamento das contas.

Não é apenas comida

Mas a salada não é o único benefício da horta. Seu Zé conta que é uma verdadeira terapia. “Na Paraíba eu trabalhava com terra. Aqui, esqueço as coisas erradas”, diz.

Para Anderson, a horta ajuda a refrescar a mente. “Tem dias que entro embaixo do pé de limão e xingo tudo. Fica tudo aqui. É bom se sujar de lama, lembra o interior”.

O educador Rodrigo Alves, 29, que acompanha tudo diz que o ambiente é diferente de uma sala de aula. “Aqui todo mundo sabe o que faz”, comenta.

E a tranquilidade do local impressiona. Durante todo o tempo, o silêncio é brevemente interrompido apenas pelos vagões do metrô e ônibus que passam distantes.

Sem agrotóxicos

Apesar de utilizar terra seca de construção, que precisa ser peneirada, a horta não utiliza agrotóxicos e é protegida por pés de tabaco e pelos cuidados dos conviventes.

A ideia é triplicar a produção com a instalação de jardins suspensos para hortaliças e com a terra de compostagem que a casa vai receber do programa Composta São Paulo, da Prefeitura.

Moradores de rua como protagonistas

Além da horta, a Caso Porto Seguro permite que os conviventes lavem suas roupas -em três dias por semana, devido ao racionamento de água-, façam higiene pessoal, tomem café da manhã e almocem.

Eles também podem participar de aulas de alfabetização, Ensino Fundamental e Médio, atividades de capoeira, xilogravura (que tem parceria com o Programa Extramuros da Pinacoteca), arte em mosaico com o lixo que é jogado da rua, yôga, entre outras.

Apesar de ser bancada por uma mantenedora evangélica, um convênio entre a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) e a Associação Evangélica Beneficente (AEB), não existe vínculo direto da religião nas atividades da casa – apenas um culto aos sábados que, como as outras atividades, não é obrigatório. A casa recebe homossexuais e usuários de drogas sem discriminação e realiza trabalhos de reinserção social.

Toda última sexta-feira do mês acontece uma assembleia na qual os conviventes e funcionários discutem os temas e decidem o futuro da casa. Além de regras, os encontros criaram um manual de conduta, que inclui até itens contrários à homofobia.

Dinei Spadoni, gestor da casa há 1 ano, explica que a casa tem propostas diferentes dos albergues. “As regras são decididas por eles. Não posso decidir nada sozinho. Eles precisam se apropriar e se reconhecer”, comenta o gestor.

Porém, decidiu retirar a televisão do local que, segundo ele, hipnotizava os frequentadores. “Eles têm que viver os conflitos e as brigas, não podem fugir”, comentou Dinei.

O sol do meio dia afasta o vento gelado do inverno de São Paulo, anunciando o almoço. Hora de experimentar a salada plantada no local.

Anúncios