“É pelo coração que me ligo à minha horta…”

Horta, pedaço de nós mesmos, mãe. Se compreendermos que ela é não só a nossa origem como também nosso destino, e se a amarmos, então estaremos amando a nós mesmos, como seremos. Não, não tenho uma horta para economizar na feira. Tenho uma horta porque preciso dela, como preciso de alguém a quem amo.

Com a temática do Bem Comum, o 46º Festival de Inverno da UFMG, realizado entre os dias 18 e 26 de julho, trouxe para dentro do campus da UFMG novas (ou apenas esquecidas e invisibilizadas) formas de se apropriar do espaço público. Reunindo indígenas, quilombolas, congadeiros, agricultores urbanos, moradores de ocupações, bicicleteiros e quem mais se interessasse por repensar e viver os usos tradicionalmente dados ao espaço, o festival permitiu o intercâmbio entre diferentes saberes, gostos, músicas, gerações e significados.

Dentro deste universo tão diverso, o GT Plantar, Cozinhar e Comer (Hortas e Comidarias) se propunha a investigar e construir o mundo da terra e da cozinha, explicitando este vínculo que o modo de vida urbano tende a obscurecer. Convidada pela coordenação do GT a contribuir na construção do mesmo, a AMAU – Articulação Metropolitana de Agricultura Urbana esteve presente em diferentes momentos no festival.

A horta é parte do meu corpo, do lado de fora, e é por isso que pode ser comida, entrar para dentro, transformar-se em vida, minha vida. Eu dou vida à horta, preparo a terra, planto as sementes, rego, elas vivem, e depois se oferecem a mim, através do meu desejo.

Na sexta-feira, dia 19, um grupo de 12 pessoas pôde conhecer três espaços produtivos distintos da Região Metropolitana: o Ervanário São Francisco no Alto Vera Cruz, a horta do Frutos da União localizada no Ribeiro de Abreu, e a horta comunitária dos Borges em Sabará.

Nascido da necessidade do casal Tantinha e Fernando em tratar dos problemas de saúde de sua família, o Ervanário São Francisco vem  ao  longo  de  17  anos  trabalhando  com  as  práticas  complementares  em  saúde,  como  aproveitamento  integral  dos  alimentos, agricultura  urbana,  resgate  e  ativação  de  conhecimentos  tradicionais,  preparo  e  uso  das  plantas  medicinais,  massagens,  orações  e  formação  de  grupos  e  pessoas.  O  grupo  ainda,  comercializa  seus  produtos em diferentes espaços como a Feira Terra Viva, aos sábados, e a feira da Bernardo Monteiro, às sextas-feiras. Na AMAU, o grupo integra a Comissão de Plantas Medicinais.

Cultivada em terreno pertencente à igreja no bairro Ribeiro de Abreu a partir da iniciativa de três senhoras, Júlia, Amélia e Bernadete, a horta do Frutos da União atualmente promove a comercialização de seus produtos quinzenalmente aos sábados em feira realizada no próprio espaço de produção. O grupo também participa da Feira Terra Viva e integra as comissões de Agrobiodiversidade, onde D. Júlia é guardiã de sementes, e Mulheres.

Já a horta dos Borges é uma iniciativa da qual participam 18 famílias, situada às margens do rio das Velhas e apoiada pela prefeitura de Sabará que fornece esterco, água e eletricidade. Recentemente ingressos na AMAU, o grupo comercializa sua produção na Feira da Cidade Administrativa às sextas-feiras, e na Feira Terra Viva. Última parada da visita, neste espaço cada um dos visitantes recebeu um mini-kit de hortaliças, produto semelhante a um buquê composto por alface, agrião e rúcula.

O mundo bem poderia ser uma grande horta: canteiros sem fim, terra fértil, nossas sementes se espalhando, nosso corpo ressuscitando de sua grande e mortal letargia.

O tema Cultivando a Cidade marcou a quarta-feira, dia 23. Durante a manhã, produtores orgânicos, agroecológicos e artesanais da Feira Terra Viva somaram-se à Feira de Tudo, realizada em frente à reitoria, e trouxeram ao campus a temática da economia solidária associada à alimentação saudável.

À tarde, no interior da estrutura geodésica construída no gramado da Escola de Música, o Slow Food em parceria com a AMAU, promoveram uma roda de conversas que reuniu agricultores urbanos e periurbanos em torno da temática do cultivo nas cidades. “Pois a horta é assim também. Não é coisa só para boca. Se apossa do corpo inteiro, entra pelo nariz, pelos olhos, pelos ouvidos, pela pele, toma conta da imaginação, invoca memórias…” dizia texto de Rubem Alves lido no início do encontro. Após a rodada de apresentações, onde além do nome, cada um resgatava também uma planta que se relacionasse às suas memórias, os agricultores relataram a importância de estar atento à lua para plantar e a necessidade de se conhecer bem as práticas corretas para o bom cultivo. Toninho, agricultor do Assentamento Ho Chi Minh em Nova União, compartilhou sua experiência de nascido e criado no meio urbano que nos últimos 9 anos tem se tornado um homem do campo. D. Júlia trouxe o exemplo de D. Amélia, agricultora urbana de 85 anos que não abre mão do trabalho na horta. Ressaltou-se o aspecto terapêutico da lida com a terra, e como o meio urbano invadiu o campo há anos atrás, em oposição à ideia de que a agricultura que estaria atualmente ocupando o espaço urbano.

Marcelo Podestá, representante do Slow Food e coordenador do GT, destacou a importância do resgate de nossos laços com nossa alimentação. Tendo o alimento posição central em nossas vidas, diversas temáticas como a questão agrícola, o consumo consciente, saúde, uso do nosso tempo ou as relações que construímos uns com os outros e com o mundo vem à tona.

O dia se encerrou com uma oficina para cultivar em pequenos espaços utilizando garrafas pet, enquanto era realizada a troca de mudas e sementes, muitas delas hortaliças não convencionais doadas pela EPAMIG, como peixinho, capuxinha, vinagreira, azedinha, araruta, dentre outras.

Horta se parece com filho. Vai acontecendo aos poucos, a gente vai se alegrando a cada momento, cada momento é hora de colheita. Tanto o filho quanto a horta nascem de semeaduras. Semente, sêmen.

Relato afetivo por Tatiana Fonseca, geóloga e bolsista do AUÊ!.

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